quarta-feira, 6 de julho de 2016

Você não vai mais trabalhar sozinho...

A inteligência artificial será uma aliada, seremos donos do nosso tempo, e aprender será uma constante nas nossas vidas mediadas pela tecnologia

Vedetes da chamada economia colaborativa, Uber e AirBnb são um retrato possível do futuro das organizações, ágeis como nosso tempo e escaláveis ao gosto da economia globalizada. O quadro de funcionários é enxuto, a estrutura é simples: uma plataforma digital que, sem perder eficiência, pode gerir cem ou cem mil "funcionários". Com aspas, porque as empresas do amanhã -- ou do hoje, a depender do ponto de vista -- são corpos flexíveis e dinâmicos, em que há menos empregados e mais colaboradores eventuais.

-- As empresas tendem a ser cada vez mais horizontais, com colaboradores sob demanda, postos especializados ocupando funções quando ela precisa, estrutura mais escalável, de atuação global -- resume Sandro Cortezia, coordenador do Pós-MBA em Gestão da Inovação da Unisinos. 

No cerne deste movimento, está o profissional que entra hoje no mercado. Nascidos entre os anos 1980 e 2000, os Millennials (ou geração Y) valorizam abertura, transparência e o envolvimento com causas que deem mais sentido ao trabalho. Preferem o uso de um bem à sua posse e compartilham de tudo. 

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No app Fon, usuários disponibilizam suas senhas de WiFi para internautas nas redondezas. No Bliive, troca-se tempo: alguém pode oferecer aulas de inglês e receber sessões de psicoterapia. Massagem oriental em troca de coaching de finanças pessoais. 

Os empreendedores por trás das startups do amanhã têm ajudado a redefinir as métricas de sucesso, do paradigma industrial, de propriedade, lucro e crescimento, para um paradigma de abundância, em que a informação circula mais livremente, e contam o envolvimento com a comunidade, a felicidade dos funcionários e a inovação aberta.

É claro que a empresa do futuro almeja o lucro, mas com propósito. O trajeto do Uber, que nasceu em 2010 e, cinco anos depois, já valia mais de US$ 60 bilhões, começou com uma intenção transformadora: a empresa propõe uma alternativa ao carro particular e pressiona governos a reverem legislações ligadas ao transporte. O AirBnb, criado em 2008, já supera, de longe (22%) o número de reservas da rede de hotéis Hilton. 

O profissional do amanhã deve enxergar soluções que gerem valor para a sociedade. 

-- Precisamos do empreendedor com inteligência, que é o cara que estamos formando hoje. Este sujeito que não está tão interessado em ser empregado e que tem visão social -- define Oscar Kronmeyer, que além de professor da Unisinos também é executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

Transformação que se impõe

O futurista Tiago Mattos, proprietário do laboratório de inovação Aeroli.to, acredita que o avanço de empresas nos moldes da chamada economia colaborativa cria pressão para que empresas tradicionais distanciem-se da "lógica industrial". O modelo tradicional, segundo ele, já não cativa os profissionais mais talentosos.

-- A grande transformação vai vir porque a galera não vai operar para o sistema, nesta cadeia de força de trabalho com métricas de sucesso que não engajam -- diz Mattos.

O professor e consultor Sandro Cortezia diz ser difícil antever o quão intensa e ligeira será a transformação de empresas brasileiras, "no geral, ultrapassadas, pouco inovadoras e avessas ao risco". Mas é taxativo: elas precisarão mudar. Cortezia é fundador e diretor executivo da Ventiur, empresa sediada no Parque Tecnológico da Unisinos (Tecnosinos). A aceleradora de startups vem trabalhando com grandes empresas que querem atualizar processos e agregar novas soluções aos seus negócios por meio do contato com startups, em relações de benefício mútuo: empresas têm acesso à oxigenação das startups, que encontram mentoria e investimento nas organizações tradicionais.

Inteligência em todo lugar

Uma transformação importante é esperada a partir da combinação da economia colaborativa com a Internet das Coisas, a rede expandida em que, além de computadores e smartphones, estão conectados dispositivos eletrônicos inteligentes de todo tipo, dos eletrodomésticos às máquinas industriais. Ambas as tecnologias são realidade e são pura eficiência. 

A primeira porque maximiza o uso de bens que, de outra forma, ficariam ociosos. A segunda porque permite que dispositivos de todo tipo funcionem em sincronia, como uma orquestra auto-regida a serviço do coletivo, que ainda obtém informações sobre o funcionamento do sistema e o ambiente ao redor.

A inteligência está embarcada na tecnologia, e a tecnologia inteligente está, cada vez mais, embarcada nas empresas. A colaboração passará a ocorrer entre indústrias.

-- Imagina empresas compartilhando uso de máquinas inteligentes que conversem entre si. Se maximizarmos o uso dos ativos na indústria globalmente, o custo de produzir uma unidade adicional de algo quando os equipamentos já estão pagos começa a ser custo marginal. Imagina o impacto na sustentabilidade em seus três eixos, econômico, social e ambiental! -- provoca Oscar Kronmeyer.

Segundo Margrit Krug, coordenadora da graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Unisinos, a tecnologia inteligente e onipresente está atraindo profissionais de outras áreas a cursarem graduações em TI, além de transformar o perfil do estudante da área.

-- O profissional tem de estar mais atualizado, porque existe essa interligação entre hardware e software. Não se desenvolve apenas para desktops e notebooks: há uma infinidade de dispositivos diferentes, e pessoas querem ter acesso aos aplicativos nas diferentes plataformas -- afirma a professora.

O avanço de dispositivos inteligentes tende a multiplicar a quantidade de dados gerados sobre tudo e todos. Processos podem ser otimizados, e as performances dos profissionais, monitoradas no detalhe. 

Os implementos "de precisão", empregados em setores como o agronegócio, tornam-se lugar comum. Segundo Oscar Kronmeyer, cresce a demanda por profissionais qualificados a operar o maquinário inteligente num campo mais rico e mais tecnológico. São profissionais como os pilotos de drones (capazes de fazer microadubação e aplicação localizada de defensivos), especialistas em agricultura de precisão e técnicos em eletrônica, qualificando as oficinas das fazendas, que agora têm máquinas agrícolas conectadas e com inteligência embarcada.

Empresa é hardware, profissional é software

Assim como o modelo das empresas, as carreiras que dominarão o amanhã do trabalho não estão definidas. Segundo relatório do Fórum Econômico Mundial, em poucos anos, cargos incipientes devem tornar-se coringas no mercado. Analistas de dados estarão em alta, com a consolidação da Internet das Coisas acentuando a proliferação de bits -- o desafio será descobrir não apenas novas soluções para velhos problemas, mas problemas ainda desconhecidos. Gestores afeitos à tecnologia, com visão estratégica e inteligência social terão de guiar empresas através da tormenta.

Um estudo do Profuturo, da Universidade de São Paulo (USP), consultou 112 especialistas para elencar as novas carreiras mais promissoras para além das atividades tecnológicas. A questão ambiental impõe a criação de novos cargos, como o Gerente de Eco-Relações. Longevidade e envelhecimento da população criam funções como o Conselheiro de Aposentadoria e o Coordenador de Desenvolvimento da Força de Trabalho e Educação Continuada. A tecnologa permeia todas as carreiras e deve aumentar a presença de figuras como o Chefe de Inovação. Autora do estudo, a professora da faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP Renata Spers acredita que a pesquisa, realizada em 2008, ainda reflete as transformações em curso.

Em qualquer atividade, há competências indispensáveis para o profissional que quiser se manter empregável em um cenário de transformação, carreiras mais fluídas e multidisciplinares. Conhecimento digital e postura amigável à tecnologia são necessidades óbvias, e adaptabilidade, uma questão de sobrevivência.

Segundo Oscar Kronmeyer, o Brasil precisa de mais estudantes de Engenharia e Tecnologias da Informação e Comunicação para ¿dirigir o país para um posicionamento global sustentável¿. O professor acrescenta que, como seres num mundo em transformação, somos todos beta, ou seja, estamos sempre em evolução, nunca prontos.

-- Eu enxergo as pessoas mudando muito de profissão ao longo da vida. Esta flexibilidade exige um processo contínuo de aprendizado e transformação de competências -- define Kronmeyer.

Para aprender a aprender

-- Temos de ensinar os adolescentes a aprender como aprender, que é a meta-cognição. Isso vai ajudá-los a aprender de forma eficiente e continuar a aprendizagem ao londo da vida -- afirma Patrícia Jaques Maillard, professora da pós-graduação em Computação Aplicada da Unisinos. 

Na Unisinos, Patrícia trabalha em uma área que é, a um só tempo, reflexo das transformações tecnológicas e ferramenta pedagógica para o futuro: a Inteligência Artificial aplicada à educação. Os sistemas tutores desenvolvidos pela pesquisadora e pelos bolsistas de seu laboratório não são o futuro braço-direito de professores em sala de aula: são o presente. Em São Leopoldo, alunos do sétimo ano praticam álgebra auxiliados pelo sistema, que simula um professor particular. Em cada atividade, se os algoritmos detectam demora na resposta, dão dicas para a realização. Se o aluno erra em determinado ponto, o sistema identifica a dificuldade e conduz a retomada do raciocínio correto.

-- Não acredito que vá substituir o professor. Assim como a maioria das profissões, será reciclada. O professor vai deixar de ser expositor, fazendo igual para todo mundo, para ter um papel mais de planejador. "O que eu quero trabalhar hoje? Que ferramentas vou utilizar?". Talvez vá trabalhar mais soft skills, habilidades socioemocionais -- pondera Patrícia.

Segundo estudo da Universidade de Oxford, a chance de um professor de pré-escola ser substituído por máquinas nos próximos 20 anos é de 0,7%.

-- É muito difícil substituir a educação num sentido amplo, porque passa pela modelagem das relações afetivas. Fazemos isso em contato com outros seres humanos -- avalia o filósofo Adriano Naves de Brito.

Fonte: ZH

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