sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Robôs trabalhando: eles vão acabar com nossas profissões?

Sem censura, o exercício de imaginar o futuro sempre foi um incentivo à criatividade de escritores e roteiristas de TV e cinema, que inventam cenários onde a vida cotidiana é repleta de objetos que parecem dispor de superpoderes. Cientistas também se nutrem desse encantamento pelo que há de vir, investindo em projetos que, dentro de um período intenso de anos ou décadas de pesquisas e testes, tornarão viáveis os devaneios tecnológicos que recheiam as obras de ficção. 

A utilização de robôs no ambiente de trabalho, possibilidade vista com certo temor pelos leigos, torna-se cada vez mais comum, com o objetivo de melhorar a qualidade de produtos e serviços, aumentar a produtividade e reduzir custos. Dispondo de diferentes níveis de autonomia, os robôs podem assumir funções insalubres, desgastantes e perigosas, poupando os humanos e liberando-os para priorizar o esforço intelectual – utilidade que dá feição menos ameaçadora à área da robótica. 

Professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Edson Prestes compara esse receio ao da época em que os computadores começaram a ser comercializados para uso pessoal. Eram máquinas desconhecidas, com um quê de assustadoras, antes de tomarem escritórios, escolas e casas. Para o doutor em Ciência da Computação, a tecnologia robótica também promoverá uma mudança – positivamente – drástica.

– A maioria pensa nos robôs no sentido negativo, tipo O Exterminador do Futuro (ciborgue assassino interpretado por Arnold Schwarzenegger), que vão tirar postos de trabalho ou até exterminar a raça humana. Há 20 anos, todo mundo tinha medo dos computadores, e hoje todos têm computador e acesso à internet. Você consegue fazer uma série de coisas que não fazia: cuidar da sua casa à distância, operar aparelhos remotamente. Eu estou em Paris e você no Brasil, e estamos falando pela internet – exemplifica Prestes, de passagem pela França, durante entrevista concedida pelo serviço de áudio do Facebook.

– O mesmo acontece com os robôs. Eles vieram para ficar e estarão no nosso cotidiano de diferentes formas. O nível a que eles estão chegando é inimaginável. Teremos até maridos e esposas robôs, conforme já cogitado por especialistas – admira-se o professor.

Os cônjuges a que Prestes se refere são os impressionantes humanoides da série Geminoid (veja abaixo), produzidos no Japão, que, sob constante aprimoramento, em algum momento serão cogitados como substitutos de homens ou mulheres em um relacionamento. 

Antes que se alcance essa realidade mais “cinematográfica”, pode-se observar que já existem, na atualidade, diversas aplicações com as quais já convivemos: aspiradores de pó e vassouras robóticas, sistemas de estacionamento autônomos em carros de passeio, pilotos automáticos de aviões, robôs que auxiliam na execução de cirurgias, sensores inteligentes que permitem a detecção da presença de pessoas no ambiente, exoesqueletos para auxiliar o homem a erguer peso. Nas indústrias, a tendência é a da convivência.

– Teremos humanos e robôs trabalhando lado a lado, cada vez mais próximos, cooperando na realização de uma tarefa. A evolução, nos próximos anos, passa por tirar os robôs das grades de proteção e aproximá-los das pessoas – afirma Guilherme Augusto Silva Pereira, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). – Os robôs estão chegando a praticamente todos os ramos da indústria. Na maioria das vezes, para tornar as profissões mais eficientes, e não para substituir os humanos – completa. 

Busca pela autonomia

Os robôs operam em diferentes níveis de autonomia: a estrutura pode ser classificada como totalmente autônoma, semiautônoma, remotamente controlada, teleoperada ou automática. A autonomia completa é o grande objetivo dos pesquisadores da área de robótica, o que não significa dizer que os estudos almejem a criação de robôs inteligentes que tomarão decisões sem qualquer intervenção humana.

Guilherme Augusto Silva Pereira, da UFMG, dá um exemplo: um carro autônomo deve transportar um passageiro entre os pontos A e B, com segurança e respeitando as leis de trânsito. O operador não deseja que o robô decida, por conta própria, que o melhor seria levar o passageiro para o ponto C. A resolução é sempre do usuário, mas a autonomia do veículo permite a escolha sobre o trajeto a ser percorrido entre os locais de partida e chegada ou sobre os momentos em que o freio deverá ser acionado para evitar uma colisão.

O tipo de aplicação é que determina o grau de autonomia. Tarefas delicadas, envolvendo risco à vida, como a realização de uma cirurgia, jamais poderão ser totalmente delegadas ao discernimento de uma máquina. Por outro lado, a realização de uma tarefa doméstica simples, como o preparo do almoço ou a limpeza do piso, pode ser executada com total autonomia pelo robô, ensinado pelo proprietário.

– O robô não pode ser 100% autônomo. Dificilmente isso vai mudar. Não teremos cirurgiões-robôs. Máquinas 100% autônomas substituindo 100% o ser humano, isso dificilmente vai acontecer – acredita Edson Prestes, do Instituto de Informática da UFRGS.

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A possibilidade de os robôs conceberem ideias e desenvolverem valores morais ainda é uma discussão aberta às possibilidades de tudo o que ainda poderá vir pela frente.

– Vai depender do ser humano. Até o presente momento, nenhum robô consegue diferenciar o certo e o errado, o bem e o mal. Ele não sabe o que está fazendo, não pode ser responsabilizado por suas ações. Quem coloca toda essa consciência é o ser humano. Toda a responsabilidade tem que partir dos humanos. Mas isso é no momento atual. Não dá para prever daqui a 40 anos, com avanços em áreas como bioinformática e biotecnologia. A tecnologia está muito evoluída – diz Prestes. 

Ofícios sob ameaça

O temor de que postos de trabalho serão engolidos pela eficiência da automação não é infundado – pesquisa realizada pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, concluiu que quase metade dos empregos pode desaparecer devido à substituição por robôs e computadores nos Estados Unidos. Há atividades que terão de ser remodeladas, enquanto outras já estão fadadas ao sumiço.

O aperfeiçoamento da coleta de lixo tende a eliminar as vagas ocupadas por coletores, por exemplo. Cidades do Brasil e do Exterior – incluindo Caxias do Sul, na Serra – implantaram sistemas de recolhimento mecanizado operados por uma única pessoa. O motorista do caminhão aciona um braço robótico que se movimenta para pegar a lata ou o contêiner, despeja os detritos na caçamba e devolve o recipiente vazio à calçada.

À medida que esse modo de operação se difundir, coletores de lixo “à moda antiga” não serão mais necessários. Mas essa transformação no setor também tem vantagens: o novo profissional será mais qualificado, pois terá de operar um manipulador robótico. Antes em contato direto com o entulho, esse funcionário passará a trabalhar com mais conforto, resguardado do perigo de sofrer ferimentos e contaminação, e com a chance de ser melhor remunerado. A diminuição do número de empregos, aspecto negativo imediato, deverá ser amenizada por vantagens mais adiante.

– A médio e longo prazo, isso forçará que uma parcela maior da população se qualifique e se credencie para assumir postos menos insalubres e arriscados e, ao mesmo tempo, mais rentáveis e prazerosos. Essas mudanças contribuem positivamente para o desenvolvimento e a evolução da sociedade – ressalta Guilherme Pereira, da UFMG.

Expoente mundial da pesquisa científica, o físico britânico Stephen Hawking manifestou uma visão pessimista, no ano passado, quanto às implicações de uma eventual superevolução no campo da inteligência artificial – e se as máquinas atingirem um nível equivalente ou superior ao do homem? “O desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana”, sentenciou Hawking em entrevista à BBC. “Os humanos, limitados pela lenta evolução biológica, não conseguiriam competir e seriam suplantados.”

Quem está a perigo

Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, concluiu que 47% das vagas do mercado de trabalho americano estão ameaçadas diante do avanço da tecnologia. Os autores de The Future of Employment (O futuro do emprego) elaboraram um ranking com 702 ocupações, de acordo o maior ou menor nível de suscetibilidade. Veja as que estão nos extremos da tabela:

Alto risco

Operador de telemarketing
Costureiro
Bancário
Analista de crédito
Operador de rádio
Telefonista
Projecionista
Operador de caixa
Corretor de imóveis
Recepcionista

Baixo risco

Terapeuta ocupacional
Assistente social
Audiologista
Cirurgião bucomaxilofacial
Nutricionista
Coreógrafo
Médico
Psicólogo
Professor de Ensino Fundamental
Gerente de RH

Fonte: ZH

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