sábado, 19 de abril de 2014

Dieta Digital: Repórter conta como foi ficar uma semana fora das redes sociais...

É possível viver fora do virtual? A tentativa já teve algumas repercussões. Uma das mais famosas experiências foi a do escritor americano Paul Miller, que ficou um ano fora da internet entre 2012 e 2013. Depois disso, outros jornalistas e blogueiros também fizeram o teste de uma vida desplugada. Curiosa de como se sentiria, repórter do caderno Vida experimentou uma semana longe das principais conexões e relata o que sentiu.

Uma cena comum

São sete da manhã. Acabo de acordar e sentar à mesa para o café quando ouço a notificação do WhatsApp soar no telefone. Ponho a mão no aparelho e começo a dedilhar. A vibração e o barulho insistentes fazem com que eu deixe esfriar a torrada que está servida. O jornal também fica de lado enquanto respondo o recado. Quase me atraso para sair de casa. Repito a ação várias vezes durante o dia. No almoço. Em meio a uma reunião. Durante entrevistas. Sempre há novas conversas que se iniciam. Algumas ficam armazenadas sem leitura, até que reabro o aplicativo. Lá estão 10, 30, 50 mensagens. Não há checagem que dê conta de tanta conversação. Chego em casa para descansar.

Até a hora de dormir, a charla segue no mundo virtual: a tela do smartphone brilha alertando para a presença de novas curtidas, fotos, comentários, mensagens compartilhadas pelo Facebook, Instagram ou Twitter. Assim é a rotina diária de milhões de pessoas que, tal como eu, fazem uso intenso das redes sociais. Por conta da reportagem, desativei as notificações do telefone e deixei de lado as ferramentas de comunicação na internet para experimentar os efeitos de uma vida menos plugada. Por uma semana, não interagi em nenhuma rede social e só olhei e-mail do trabalho no desktop da empresa.

Efeitos comportamentais

Por mais estranho que tenha sido no começo, depois de sete dias distante da enxurrada de informações, descobri uma vida mais focada, calma e organizada. Mas, confesso: fiquei um pouco mais solitária e tive momentos menos divertidos por conta disso.

Ao início do projeto, pensei que ficar longe da informação digital me ajudaria a recuperar as rédeas da minha rotina. Que resgataria velhos hábitos dos quais sinto falta, como escrever cartas, completar leituras de ficção ou visitar os amigos. Claro que, em uma semana, esses objetivos não puderam ser todos cumpridos. Mesmo fora da internet, o networking não desaparece (ainda bem!). Eliminar excessos virtuais não levou a nenhum estágio meditativo da mente, mas permitiu abrir novos espaços livres — vazios de informação que, possivelmente, se assim eu continuar, poderão ser terreno fértil para reflexão e novos pensamentos criativos.

Uma semana "out"

1º de abril

Vou estar mentindo se disser que o primeiro dia do projeto de desconexão passou ileso de uma espiadinha nas redes sociais. Mas como hoje é dia da mentira, espero que vocês entendam que precisei acessar o whatsapp para contatar uma entrevistada e, claro, acabei dando aquela passadinha para avisar os amigos que sumiria por uma semana.

2 de abril

Chego no trabalho e a colega que senta na minha frente está de aniversário. Sorte que outras pessoas lembraram, e eu a abracei por tabela. À noite, presenciei um assalto, quando uma motorista teve seu celular levado, provavelmente, enquanto checava notificações. Fiquei indignada, e em dúvida sobre com quem compartilhar o episódio.

3 de abril

Dois novos pimentões nasceram na minha horta vertical. Quis registrar e compartilhar no instagram, mas me contive em uma contemplação silenciosa. Também soube de uma notícia bombástica e, em outros tempos, mandaria bala no whatsapp. Acabei ligando para uma amiga para dar vazão à vontade de interagir. Ela deu risada da minha abstinência virtual.

4 de abril

Dediquei cerca de 30 minutos ajudando um idoso a resolver problemas digitais. Foi uma forma de matar a saudade da tecnologia. Também observei que a concentração é o prêmio que ganho por resistir à rede de Zuckerberg — o ônus é a ansiedade. Estou tentando conseguir ingresso para a reinauguração do Estádio Beira-Rio e está difícil sem os amigos virtuais.

5 e 6 de abril

É chegado o final de semana e consigo, enfim, o ingresso. Comemoro a existência da solidariedade fora das redes. Quero ver as imagens do evento, mas me contento outra vez com o espectro da vida real. A ansiedade dá lugar ao bem-estar trazido pelo fato de viver "aqui e agora".

7 de abril

Dia do jornalista e, mesmo desconectada, sou lembrada com duas ligações e uma visita-surpresa com direito a cartão, flores e chocolate. Fico feliz e sensibilizada pelo afeto que transborda para fora do mundo virtual.

8 de abril

Ao fim da experiência, me sinto mais livre, conectada com o que realmente importa. Agora preciso de uma faxineira virtual para eliminar excessos do meu mundo cibernético. O regime das redes sociais me fez bem e percebi que elas so como chocolate ou carne de costela: fazem bem se usadas com moderação.

Mais vida, menos conexão

Ex-editor da versão inglesa da revista Wired, o jornalista e consultor David Baker esteve em Porto Alegre recentemente para uma pretensa aula nomeada Escola da Vida. Na ocasião, Baker reuniu pensadores, artistas e filósofos para falar sobre efeitos do excesso de tecnologia e propor momentos de desconexão. Imagine, então, crianças desligando seus videogames, jovens dando logout das redes e adultos deixando tablets de lado para um piquenique no parque. Não precisa ser um gênio para saber

que isso traduz qualidade de vida. Por que então Baker cobrou R$ 100 para falar em uma aula algo tão óbvio, que a humanidade já sabe desde os tempos passados?

— Há muita gente que está tendo prejuízos com o excesso de comunicação e nem se dá conta. Quando o uso começa a causar danos de relacionamentos, trabalho, estudos e até em família, aí temos uma dependência que pode atrapalhar muito a sua vida até você recuperar de volta as rédeas — diz o psiquiatra Daniel Tornaim Spritzer, fundador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas.

Cognição viciante

Pesquisador de comunidades virtuais desde 1997, o professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação da UFRGS Alex Primo explica que o deslumbramento pelas relações virtuais vem desde a época do ICQ e do mIRC. Se você tem menos de 30 anos, é possível que nem saiba do que se trata. Mas muitos viciados em internet começaram naquela época a ser fisgados pela viciante sensação de ver a florzinha giratória notificar uma conversa.

Essa satisfação, que hoje pode ser considerada equivalente a uma chuva de likes (milhares de curtidas), atua no cérebro de maneira semelhante à liberação de dopamina no caso do usuário de droga, explica Spritzer. Metaforicamente, ele faz menção ao hormônio responsável pelo prazer e pelo vício que causa em nosso cérebro.

Quem usa muito — os chamados heavy users — pode ter sobrecarga cognitiva, chamado por alguns estudiosos de infobesidade ou cognitive overload. A pessoa usa computador no trabalho e quando vai descansar, em casa, também usa. Dessa maneira, não há tempo de descanso para o cérebro, pois apesar de ser divertido e prazeroso, o uso das redes sociais requer atenção e concentração.

Primo faz uma provocação: à medida que nos envolvemos e esperamos mais da tecnologia, podemos esperar menos um do outro? No livro Alone Toghether, a autora Sherry Turkle responde a pergunta dizendo que esses dispositivos estão redefinindo a conexão humana e a comunicação — e nos pedindo para pensar profundamente sobre os novos tipos de conexão que queremos ter.

Fonte: ZH